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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Primavera



primeiro verão
a mão, a flor, a cor
coração inteiro
no cheiro que exala
na fala
no instante de amor

aroma distante
a semente do sim
em mim é setembro
relembro o que jaz
e apraz
a paz de um jasmim




sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Espasmo


aquela noite em nós, a demorar-se... 
na desmedida ternura do afago
o inteiro dos teus gestos, sobre mim
e tua voz ressonando em meu peito
sob a aura serena de um sorriso

antes não houvesse o dia
o mundo, os outros...
e fosse só a essência do teu olhar
a sede, o corpo
somente a pausa do arrebatamento
na alegria ingênua do encontro
e nada mais acontecesse
senão o beijo insuspeitado

ou fossem ainda as horas 
incessantes
sorvidas no indelével
no mais duradouro azul
enquanto éramos silentes
precisos
carnais

agora
nada extingue o teu encanto
nem o óbvio mistério do porvir
pois tua presença calma 
é o tempo que inventei
dentro do amor

terça-feira, 29 de julho de 2014

Minto

Tudo em mim já não existe,
no momento em que lhe conto.
Nem mesmo ponto, tempo, tipo,
pois palavra engole sentimento.
Furacão venta brisa.
Gritaria, um sussurro.
Falta-lhe detalhe, substância, conteúdo,
Essência de todo jeito.

Porém retorna se me deito,
calado de palavra,
espaçoso em solidão.
Vem por me tomar o chão,
a carne, o instinto.
Mas não minto quando o conto,
talvez minta quando o sinto.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Minha hora

dorme, minha hora
que te acalento
lentamente

fora do tempo que tem pressa
e mais alto
perto dos meus sempres

e não te acordes
nem por um minuto
que amanhã verás o sol

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Intento

brincar infinito
amar inteiro
viver intrépido

in

possibilidades...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

As coisas

Mexeu na seta do dizer
por cima das conversas
Feriu-se desmerecido
num espinho de gente
porque ondulava
E deu de amar as coisas
somente as coisas
Guardado com inocências
abriu-se
para a tarde inteira:
uma pipa pelo ar
ventando grande
assovio sem dono
ponta de vento floreado
cigarra no cajueiro
estridulando
passarinho na terra
graveto no bico
cisca, cisca, voou
(dentro da própria música)
e pousou alto
perto do amor amarelo
que pendia plácido
oferecido
doce
sem espinhos...

e tudo era quintal.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

“Poeminha”

Poetinha, enfim, me aponte
um caminho a se tomar,
porque a minha bela fonte
de calor vai se apagar...

Põe-se à linha do horizonte
o meu sol perto do mar.
Pode o tempo atrás do monte
ser-nos justo e não passar?

Poetinha, minha ponte,
se ele um dia não voltar,
me recite, me reconte,
quantas vezes precisar!

sábado, 4 de julho de 2009

Silêncios

houve
o teu silêncio
apenas
eu teimo
mas meus olhos
se distraem

ouve
o meu silêncio
apenas
pois queimo
em metáforas
que não saem

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Descompasso

minhas notas tão vazias
nesse mundo distraído
coração em sustenido
que se perde na harmonia

já não sinto a melodia
que conduz o meu sentido
antes não tivesse ouvido
a canção das alegrias...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Contratempo

com olhos amanhecidos
de aurora matizada
pelo vermelho das maçãs do rosto
(num outono eterno)
e outras cores do pensamento
acordou

disse o que estava em si
coisas misteriosas
assim, como cheiro de mãe
frio na barriga
estrela cadente

coloriu o sorriso então
com nuances de pronúncias
que supunha existirem
sorriu ensolarado
e por fim existiram
lábios de verão

mas disseram-lhe trovões
escureceu-se
gelou-se de inverno
e dormiu novamente
com olhos chuvosos
sonhando neblinas.

sábado, 30 de maio de 2009

Menino inventado

o menino se aproxima, entra
arqueia-se numa curiosidade inventada

o cenho franzido

sorri à carência de uma palavra
(não teve irmãos)
traz o corpo magro em seu andar
desajeitadamente inventado

mostra-se desconcertado, puro
conta-me suas coisas, coisas de vento
mas pergunta-me pelo amanhã; meus afazeres

sinto a ternura, a serenidade
sorrio sem lhe dizer que faria versos
versos para o irmão imaginado

minha mão aventava
o menino inventado.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Errante

Desaprendo meus passos
a vida passa
com acertos escorregadios
e meus olhos fechados.
E esse tempo que não volta?
E essa música que esqueço?
Meu corpo de gelo se derrete
em águas de vagas lembranças
que evaporam pelo ar
no calor dos dias
das coisas
das gentes...
Estas são as pegadas
do meu rastro volátil
o fantasma das escolhas
apontando para a alma
minha calma asfixiada
espremida entre os dedos
os medos que me ponho
meus sonhos enferrujados
nas projeções atrevidas.
Vida sem fim
vida que passa
abraça-me ao menos
para me ver partir
e dá-me o beijo do sim
pois vim a mim
num desatino do tempo
que me expulsa
constantemente
dos passados
e os apaga...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ausências

Este pedaço solto de alma
esta pele já tão pequena
em volta de mim...
Um novelo de emoções
sem um gato a se enroscar
Meus nós, meus embaraços
meus braços abertos
sem abraços
meus barcos sem norte
meu forte sem batalhas
voz sem canção
porão sem tralhas
A flor do coração
sem pétalas
sem cor
sem nada.
E cada
primavera escondida
cada ausência sentida
explodindo-me
num vazio crescente.
Meu mundo sem gente
meu tempo sem dia
meu verso poente
à mercê da poesia...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aranha

E tece nos pecíolos dançantes
Das folhas uma teia sem igual
Bailado de firmeza escultural
E variantes...

Pendura-se, aventura-se no céu,
Nos galhos espaçados e sutis
Captura o que é invisível. Tarde gris
Desfaz-se ao léu...

domingo, 17 de maio de 2009

Duas garrinchas

Hoje duas garrinchas pousaram na janela,
Encostaram-se e roçaram-se como namorados,
Não havia o que pensar ou ponderar; só as havia.
Subiram pelas paredes como exímias escaladoras que são.
Não me olharam, nem me julgaram.
Nada fizeram para mim, além de surgirem.
Duas pazes enamorando-se numa só.
Sobem, descem, andam, voam,
São tudo o que se deseja ser:
A leveza, a graça, o dom, o vôo.
O capricho nos saltinhos, a habilidade no pousar.
Quem lhes ensinou?