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domingo, 26 de fevereiro de 2012

O jardineiro e a flor


"E onde não queres nada, nada falta. 
E onde voas bem alta, eu sou o chão" 
(O quereres - Caetano Veloso)

- Ao ver-te em campo aberto, aí com tantas folhas,
invejo o teu fulgor vivaz, roseira minha.
E a pétala que emites, linda e vermelhinha,
contigo permanece, embora não a colhas.

Faz tempo, o meu amor se foi: meu sol definha.
Soluço, e sofrem mãos e pés com tantas bolhas;
trabalho pra esquecê-la, em vão. Não tenho escolhas.
Feliz tu deves ser... das flores és rainha!

- Meu caro, não reclama. Tu terás depois
do que te relembrar; um velho amor ardente!
Meu sonho é que pudesse amar, viver a dois,

mas nunca tive um par, embora tão carente...
Retorna ao teu jardim e cuida dele, pois
quem brota para a vida é livre eternamente.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Soneto de Bem-me-quer


Quando a fragilidade me vier
ao corpo, como nuvem sorrateira,
terei saudade imensa da maneira
de amar que está na flor e na mulher.

Pois se a primeira delas lhe disser
que a outra tem perfume e ainda cheira,
a vida há de tornar-se plena, inteira,
a própria paz do amor, do bem-me-quer.

E sempre que a segunda abrir o peito,
cheirando as outras flores do canteiro,
ou mesmo suspirando ao recebê-las,

virá ao mundo um bólido perfeito,
com pétalas do amor mais verdadeiro,
que se eternizará entre as estrelas.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tempo de Sobrado


Por dentro dessa chuva, o meu passado,
um ontem que não cessa nesse quando,
que encharca meu olhar, mas vai regando
a flor do tempo em mim. E sou levado

a crer que sempre estive do outro lado
do quadro que me vai emoldurando.
A porta que se abriu ao vento brando
sou eu, que não saí nem tenho entrado.

E aqui deste sobrado vejo tantos
caindo sob a chuva, sem encantos...
São todos como eu, incerto e lasso!

O tempo em que ficaram esquecidos
comunga com o silêncio em meus ouvidos
e vão passando os dias, porque passo.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Valsa da lembrança

À cena que te encontro me refaço,
dançando... Que saudade isso me traz!
Sentia como fosse em mim capaz
de haver mais amplidão do que no espaço.

Assim o amor nos vem, sob um abraço,
o peito sem saber encontra a paz.
E pulsa como há muito já não faz
o velho coração. Eu me embaraço,

se penso que és presente na lembrança.
Encosta o teu bailar ao meu e dança,
com os passos do passado à nossa volta...

Ensaio-os de novo e me contento,
meu tempo de te amar é como o vento;
Serei o par eterno que te escolta!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Lamentos

Outona-se a paixão... Que desatino!
Pensar em tanto amor morrendo à espera
da mútua entrega ardente, da quimera
que fora congelada em vão destino...

Não fomos senão flores de ouro fino,
brilhantes porém gélidas. Quisera
eu ter um coração de primavera
e amar-te, na inocência de menino.

Contendo as estações meu peito chora
à noite, quando o céu é mais bonito.
Ao tempo em que do orvalho se enamora,

a vida poderia ter-nos dito
que nosso amor, crisálida de aurora,
se borboleteou pelo infinito.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A casa

Segue o vento a ninar mais uma pluma
numa casa, onde o tempo foi saudade.
Há tristeza a brilhar, pois que me invade
tanta luz quando penso. E vai-se a bruma...

Ao regresso, meu peito se perfuma,
enfeitado co’as graxas! Mas tem ânsias;
nada resta da aurora das infâncias;
nem quintal, nem mangueira ou coisa alguma.

Ah! morri quando vi tanta mudança,
no jardim já não há o mandacaru,
que floriu lá na seca da lembrança...

Esse espaço se entrega ao tempo: nu,
como o ar. Pois a próxima criança
não verá da varanda o céu azul!

“Construíram uma casa fria onde havia calor, sonhos e lembranças; jardim e quintal se abraçavam ali, e hoje não existem mais...”