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CONTADOR

sábado, 30 de maio de 2009

Menino inventado

o menino se aproxima, entra
arqueia-se numa curiosidade inventada

o cenho franzido

sorri à carência de uma palavra
(não teve irmãos)
traz o corpo magro em seu andar
desajeitadamente inventado

mostra-se desconcertado, puro
conta-me suas coisas, coisas de vento
mas pergunta-me pelo amanhã; meus afazeres

sinto a ternura, a serenidade
sorrio sem lhe dizer que faria versos
versos para o irmão imaginado

minha mão aventava
o menino inventado.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Errante

Desaprendo meus passos
a vida passa
com acertos escorregadios
e meus olhos fechados.
E esse tempo que não volta?
E essa música que esqueço?
Meu corpo de gelo se derrete
em águas de vagas lembranças
que evaporam pelo ar
no calor dos dias
das coisas
das gentes...
Estas são as pegadas
do meu rastro volátil
o fantasma das escolhas
apontando para a alma
minha calma asfixiada
espremida entre os dedos
os medos que me ponho
meus sonhos enferrujados
nas projeções atrevidas.
Vida sem fim
vida que passa
abraça-me ao menos
para me ver partir
e dá-me o beijo do sim
pois vim a mim
num desatino do tempo
que me expulsa
constantemente
dos passados
e os apaga...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ausências

Este pedaço solto de alma
esta pele já tão pequena
em volta de mim...
Um novelo de emoções
sem um gato a se enroscar
Meus nós, meus embaraços
meus braços abertos
sem abraços
meus barcos sem norte
meu forte sem batalhas
voz sem canção
porão sem tralhas
A flor do coração
sem pétalas
sem cor
sem nada.
E cada
primavera escondida
cada ausência sentida
explodindo-me
num vazio crescente.
Meu mundo sem gente
meu tempo sem dia
meu verso poente
à mercê da poesia...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aranha

E tece nos pecíolos dançantes
Das folhas uma teia sem igual
Bailado de firmeza escultural
E variantes...

Pendura-se, aventura-se no céu,
Nos galhos espaçados e sutis
Captura o que é invisível. Tarde gris
Desfaz-se ao léu...

domingo, 17 de maio de 2009

Duas garrinchas

Hoje duas garrinchas pousaram na janela,
Encostaram-se e roçaram-se como namorados,
Não havia o que pensar ou ponderar; só as havia.
Subiram pelas paredes como exímias escaladoras que são.
Não me olharam, nem me julgaram.
Nada fizeram para mim, além de surgirem.
Duas pazes enamorando-se numa só.
Sobem, descem, andam, voam,
São tudo o que se deseja ser:
A leveza, a graça, o dom, o vôo.
O capricho nos saltinhos, a habilidade no pousar.
Quem lhes ensinou?