Visitas desde a última internação


CONTADOR

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

As coisas

Mexeu na seta do dizer
por cima das conversas
Feriu-se desmerecido
num espinho de gente
porque ondulava
E deu de amar as coisas
somente as coisas
Guardado com inocências
abriu-se
para a tarde inteira:
uma pipa pelo ar
ventando grande
assovio sem dono
ponta de vento floreado
cigarra no cajueiro
estridulando
passarinho na terra
graveto no bico
cisca, cisca, voou
(dentro da própria música)
e pousou alto
perto do amor amarelo
que pendia plácido
oferecido
doce
sem espinhos...

e tudo era quintal.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tempo de Sobrado


Por dentro dessa chuva, o meu passado,
um ontem que não cessa nesse quando,
que encharca meu olhar, mas vai regando
a flor do tempo em mim. E sou levado

a crer que sempre estive do outro lado
do quadro que me vai emoldurando.
A porta que se abriu ao vento brando
sou eu, que não saí nem tenho entrado.

E aqui deste sobrado vejo tantos
caindo sob a chuva, sem encantos...
São todos como eu, incerto e lasso!

O tempo em que ficaram esquecidos
comunga com o silêncio em meus ouvidos
e vão passando os dias, porque passo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Suspiros


ela vestida de amor. os olhos de seda, brilhosos. sorriso iminente. seu olhar se alternava sobre a face dele. fitava seus olhos, e boca... olhos e boca, incessantemente – sinal de paixão. e fez-se encantada, docemente sensível. porque saía de si em êxtase, e alentava-se inteira em desejos. tanto que foram luar, fizeram leito àquelas paragens. moravam no infinito, e além. era o ar, era o céu que se enfeitava. madrugada morena de alegrias. pois tudo era belo, porque pleno. e mesmo denso, porque puro. barra de saia ficou em posse dele, como num filme. mas tempo esmaece beijos, e olhares. repousam hoje em sépia sobre a estante. chorou apenas por lembrar-se, constrita. saudade é virada de vento, na varanda da alma.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Íntimo


moça de beijo morno. suponho. porque tenho calor no olhar. não se sabe tão bela, e passa. coração e corpo herméticos. enfeito o seu rastro com caprichos meus. mas guardo um silêncio azul. sua ausência me veio quando as horas se esticavam. a noite me abraçava de véus. eu que era vontade, ela que era distância. eu de velas alçadas, ela soprando longe. nada senão um eco do desencontro, ou mesmo a sombra do inesperado. agora, falo-te em sussurro. a voz cortante. penso que não havíamos de ter sido. mais uma estrela se apaga em mim, mais uma pétala que cai. tudo em nós é passadiço, porque somos o mundo inteiro. um grão de amenidades, vago e desmedido mar de anseios. vivo desse amor que me desbota. o amor enfeitado e puro, que nunca chegaste a conhecer.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

outra dose

foi quando conheci a pureza. seu coração batia como se certezas tivesse. tinha em si um mar, que atendia incansavelmente aos chamados mais chorosos. decerto, marinheiros naufragados da vida. bebemos. contou causos. sabia coisas empoeiradas. histórias e tempos e nomes na memória. refez épocas para que eu as vivesse. sorri. repetiu que há laços de outras vidas nesta. contive-me. pensei que começava a crer. a verdade se espraiava. saía de mim através de soluços, contrações. queria chorar. queria dizer-lhe palavra, mas não pude. meu corpo quis mais vícios. todos. porque ali não eram torpes. eram âncoras, servindo às almas perdidas. compreendi toda a sua impaciência. amei toda aquela pressa. vi todas as lutas se resumirem à clareza alcançada. redesenhava-se o amor. fora bússola quebrada em minhas tormentas. havia mais daquilo em mim do que eu supunha, previram outrora. as lágrimas foram tesouros que nos demos. outra dose. meu desaguar silencioso. sobre mim, pairou o óbvio e singular: é preciso amor. copos vazios. corpos em laço.