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domingo, 4 de dezembro de 2016

Tanto

a meio vento entre lábio e ouvido. de um perto intenso. falava-lhe serena: - a gente se quer tanto. os olhos em silêncio. amavam. pois já era sorriso a palavra. a sombra do corpo em sensação. cada sílaba ressonava. parecia o céu. dele, a voz em pausa. pelo senso de ouvir. entranhar o entendimento. sentirem-se. na comunhão sagrada do toque, a aurora. e deixaram-se visitar pela calma. quando pleno o sol. muito dentro de si, pulsava: a vida é beira de agrado, delirando amor.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Presságio

o ar complexo, insuflado. com iminência de cuidados, enfim. não fora antes o chumbo das horas. muito menos a laceração. somente jazia inerte e pálido. aguava vidas e vindas. de sorte adensara-se, raro em si. despertado, imponente. a tez incauta sobretudo. riso recalcitrando, em sol acontecido. vibrava de longe a orquestra. um inaudível presságio, de comprazer. agora. não sem antes hesitar, transborda. cada prece o respira. mas o sal em seus olhos. mas a sombra grave na memória. mas o tempo... porque nada transige ou aquiesce.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Amor


Todo amor é largo, gentil... nasce em sentimento e confirma-se em postura. Não se torna simplesmente, sem que antes haja um sorriso, um silêncio, um suspiro. Não se finda de repente, nem é capaz de machucar. Consagra-se no gesto e não na palavra. Sua permanência catalisa e suaviza tudo em volta, como a primavera. Sua essência respira na leveza da compreensão, cuja fronte repousa calma no olhar. Irrompe estável e certeiro, e não se desfaz... pairando incólume sobre as diferenças, quando dois corações já são inevitáveis um ao outro. 


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Tão cedo

o corpo dilatava-se. sobre o rosto, cores. tudo se fazia carne. os olhos, o gesto, o beijo. dentro de si, um som. vibra peito, vibra o jeito. longa e doce entrega. porque são da noite. porque são do mundo. sobretudo, no fundo... do coração. palavras faltam, em voz. olhares sobram, em nós. o afago dos vícios, como um adorno. o corpo morno, difícil. serenamente, vai. cai em mim a tua vinda. tão cedo quanto finda.

domingo, 22 de abril de 2012

Um ser


um verbo doente? fosse como fosse. a voz intacta dizendo. porque ele beija a substância da palavra, para tê-la em si. amálgama recém polido. ora lúcido e atuante se enobrece. ora em vágado constante se conjuga. menos do que dança a vida vã, dança. onde a palavra há para lavar, atua. obtuso insuspeitado. dilacerante explícito. do ente, um verbo... um ser. e quão bonito pode ser.

domingo, 7 de agosto de 2011

Ciclo


dormi, contigo em mim. meus cimos enevoados de sem ar. mornamente. tua lembrança sobre os vales. plana. retida estava a imagem transcendente, em que nada se anuncia. desarmada. era a beleza para além dos olhos. flor na essência do incomunicável. dançáramos, pela luz da dança. eu – meus pés intrigados. passo à frente nos seus entres de vazios. tua presença, a minha vontade de sorrir. e tudo compunha-se de cores. toda a vida, toda... meu coração, palavras brancas. aquele clarão, o nosso prisma. havia encantos esverdeados. e avermelhávamos.  o mundo era suspenso. mais a mágica dentro em nós, menos o sereno enluarado. e como que engolisse mistério, anoiteci. fiz sonho das imagens no sem-fim. luzes separadas, eu reflito. agora tenho a nós, pelo sempre.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Todo


"Deixo que  o inevitável dance, ao meu redor, 
a dança das espadas de todos os momentos"
(João Guimarães Rosa - Consciência Cósmica)

não há palavras, embora a boca ferva. e as coisas que são ditas fluem, vazam, cortam o vento. para além de mim. é nesse tempo de marés que me alucino. que sinto, senão dores que não tenho? a dor antiga, ou doravante... a dor dos outros, aventuro. meu vazio desprendido para o todo. um abismo algo torto entre dois mundos. e se por mim se desse, se alastrasse uma presença. não haveria encontro, nem completude. há muito já não estou.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Suspiros


ela vestida de amor. os olhos de seda, brilhosos. sorriso iminente. seu olhar se alternava sobre a face dele. fitava seus olhos, e boca... olhos e boca, incessantemente – sinal de paixão. e fez-se encantada, docemente sensível. porque saía de si em êxtase, e alentava-se inteira em desejos. tanto que foram luar, fizeram leito àquelas paragens. moravam no infinito, e além. era o ar, era o céu que se enfeitava. madrugada morena de alegrias. pois tudo era belo, porque pleno. e mesmo denso, porque puro. barra de saia ficou em posse dele, como num filme. mas tempo esmaece beijos, e olhares. repousam hoje em sépia sobre a estante. chorou apenas por lembrar-se, constrita. saudade é virada de vento, na varanda da alma.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Íntimo


moça de beijo morno. suponho. porque tenho calor no olhar. não se sabe tão bela, e passa. coração e corpo herméticos. enfeito o seu rastro com caprichos meus. mas guardo um silêncio azul. sua ausência me veio quando as horas se esticavam. a noite me abraçava de véus. eu que era vontade, ela que era distância. eu de velas alçadas, ela soprando longe. nada senão um eco do desencontro, ou mesmo a sombra do inesperado. agora, falo-te em sussurro. a voz cortante. penso que não havíamos de ter sido. mais uma estrela se apaga em mim, mais uma pétala que cai. tudo em nós é passadiço, porque somos o mundo inteiro. um grão de amenidades, vago e desmedido mar de anseios. vivo desse amor que me desbota. o amor enfeitado e puro, que nunca chegaste a conhecer.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

outra dose

foi quando conheci a pureza. seu coração batia como se certezas tivesse. tinha em si um mar, que atendia incansavelmente aos chamados mais chorosos. decerto, marinheiros naufragados da vida. bebemos. contou causos. sabia coisas empoeiradas. histórias e tempos e nomes na memória. refez épocas para que eu as vivesse. sorri. repetiu que há laços de outras vidas nesta. contive-me. pensei que começava a crer. a verdade se espraiava. saía de mim através de soluços, contrações. queria chorar. queria dizer-lhe palavra, mas não pude. meu corpo quis mais vícios. todos. porque ali não eram torpes. eram âncoras, servindo às almas perdidas. compreendi toda a sua impaciência. amei toda aquela pressa. vi todas as lutas se resumirem à clareza alcançada. redesenhava-se o amor. fora bússola quebrada em minhas tormentas. havia mais daquilo em mim do que eu supunha, previram outrora. as lágrimas foram tesouros que nos demos. outra dose. meu desaguar silencioso. sobre mim, pairou o óbvio e singular: é preciso amor. copos vazios. corpos em laço.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A canção

Tenho às vistas entranhada uma alegria muda. Algo que palpita vividamente, mas sob um compasso triste, como corações acelerados ao som de um fado. Se há música em mim, que assim seja. Melodia simples, saudosa, em tom menor. Esse é o compasso do tempo, o ritmo de nossas vidas.
Creio que o tempo só exista porque existe a vida, e na existência de ambos nós nos perderemos, repetidamente. Mas a alegria a que me referi vem da sobriedade diligente. Vem de saber que a canção que inevitavelmente se acaba é a mesma que se mantém bela ao longo de toda a partitura. É a canção da vida. E esta será sempre maior que seu próprio som e profundamente mais tocante que o silêncio. Será plena, única, e tornar-se-á ainda mais apaixonante a cada vez que conseguirmos notar o quão frágil ela é, comparada ao tempo imensurável que a circunda, tempo que ela não tem para existir.
Há que se ter sensibilidade para a canção, e por vezes até emudecer as alegrias para ouvi-la.

sábado, 1 de agosto de 2009

Minha paz

Soube, um dia, em meio à multidão, que eu estava só e que minha solidão era uma amiga sincera, compreensiva. Vi-me fraco quando tive as maiores certezas e dissimulado quando verdadeiramente chorei. Foram rodopios, azáfama, pontapés desconcertantes. Com efeito, estive imerso em divergências todo o tempo. E não reclamo disso, embora me doa. Hoje sei. Viver é ter furacões dentro de si, é ter as tempestades da dialética percorrendo-nos a alma. Porque somos as controvérsias ensanguentadas, cavalos em disparada, mais selvagens do que nunca. Porém, faço aqui menção à vontade de abraçar-me com a brandura. Meu coração é praia em fim de tarde. Sim, decido pela calma. Decido, pois, pelo pôr-do-sol, porque esse, creio, já sou eu. Esse é o meu dia querendo apagar-se e minha noite ainda lhe negando a sombra. Nem claridade, nem escuridão. Quero adormecer, alaranjado, perto das coisas que amo.