Visitas desde a última internação


CONTADOR

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Valsa da lembrança

À cena que te encontro me refaço,
dançando... Que saudade isso me traz!
Sentia como fosse em mim capaz
de haver mais amplidão do que no espaço.

Assim o amor nos vem, sob um abraço,
o peito sem saber encontra a paz.
E pulsa como há muito já não faz
o velho coração. Eu me embaraço,

se penso que és presente na lembrança.
Encosta o teu bailar ao meu e dança,
com os passos do passado à nossa volta...

Ensaio-os de novo e me contento,
meu tempo de te amar é como o vento;
Serei o par eterno que te escolta!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A canção

Tenho às vistas entranhada uma alegria muda. Algo que palpita vividamente, mas sob um compasso triste, como corações acelerados ao som de um fado. Se há música em mim, que assim seja. Melodia simples, saudosa, em tom menor. Esse é o compasso do tempo, o ritmo de nossas vidas.
Creio que o tempo só exista porque existe a vida, e na existência de ambos nós nos perderemos, repetidamente. Mas a alegria a que me referi vem da sobriedade diligente. Vem de saber que a canção que inevitavelmente se acaba é a mesma que se mantém bela ao longo de toda a partitura. É a canção da vida. E esta será sempre maior que seu próprio som e profundamente mais tocante que o silêncio. Será plena, única, e tornar-se-á ainda mais apaixonante a cada vez que conseguirmos notar o quão frágil ela é, comparada ao tempo imensurável que a circunda, tempo que ela não tem para existir.
Há que se ter sensibilidade para a canção, e por vezes até emudecer as alegrias para ouvi-la.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

“Poeminha”

Poetinha, enfim, me aponte
um caminho a se tomar,
porque a minha bela fonte
de calor vai se apagar...

Põe-se à linha do horizonte
o meu sol perto do mar.
Pode o tempo atrás do monte
ser-nos justo e não passar?

Poetinha, minha ponte,
se ele um dia não voltar,
me recite, me reconte,
quantas vezes precisar!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Lamentos

Outona-se a paixão... Que desatino!
Pensar em tanto amor morrendo à espera
da mútua entrega ardente, da quimera
que fora congelada em vão destino...

Não fomos senão flores de ouro fino,
brilhantes porém gélidas. Quisera
eu ter um coração de primavera
e amar-te, na inocência de menino.

Contendo as estações meu peito chora
à noite, quando o céu é mais bonito.
Ao tempo em que do orvalho se enamora,

a vida poderia ter-nos dito
que nosso amor, crisálida de aurora,
se borboleteou pelo infinito.

sábado, 1 de agosto de 2009

Minha paz

Soube, um dia, em meio à multidão, que eu estava só e que minha solidão era uma amiga sincera, compreensiva. Vi-me fraco quando tive as maiores certezas e dissimulado quando verdadeiramente chorei. Foram rodopios, azáfama, pontapés desconcertantes. Com efeito, estive imerso em divergências todo o tempo. E não reclamo disso, embora me doa. Hoje sei. Viver é ter furacões dentro de si, é ter as tempestades da dialética percorrendo-nos a alma. Porque somos as controvérsias ensanguentadas, cavalos em disparada, mais selvagens do que nunca. Porém, faço aqui menção à vontade de abraçar-me com a brandura. Meu coração é praia em fim de tarde. Sim, decido pela calma. Decido, pois, pelo pôr-do-sol, porque esse, creio, já sou eu. Esse é o meu dia querendo apagar-se e minha noite ainda lhe negando a sombra. Nem claridade, nem escuridão. Quero adormecer, alaranjado, perto das coisas que amo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A casa

Segue o vento a ninar mais uma pluma
numa casa, onde o tempo foi saudade.
Há tristeza a brilhar, pois que me invade
tanta luz quando penso. E vai-se a bruma...

Ao regresso, meu peito se perfuma,
enfeitado co’as graxas! Mas tem ânsias;
nada resta da aurora das infâncias;
nem quintal, nem mangueira ou coisa alguma.

Ah! morri quando vi tanta mudança,
no jardim já não há o mandacaru,
que floriu lá na seca da lembrança...

Esse espaço se entrega ao tempo: nu,
como o ar. Pois a próxima criança
não verá da varanda o céu azul!

“Construíram uma casa fria onde havia calor, sonhos e lembranças; jardim e quintal se abraçavam ali, e hoje não existem mais...”

sábado, 4 de julho de 2009

Silêncios

houve
o teu silêncio
apenas
eu teimo
mas meus olhos
se distraem

ouve
o meu silêncio
apenas
pois queimo
em metáforas
que não saem

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Descompasso

minhas notas tão vazias
nesse mundo distraído
coração em sustenido
que se perde na harmonia

já não sinto a melodia
que conduz o meu sentido
antes não tivesse ouvido
a canção das alegrias...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Contratempo

com olhos amanhecidos
de aurora matizada
pelo vermelho das maçãs do rosto
(num outono eterno)
e outras cores do pensamento
acordou

disse o que estava em si
coisas misteriosas
assim, como cheiro de mãe
frio na barriga
estrela cadente

coloriu o sorriso então
com nuances de pronúncias
que supunha existirem
sorriu ensolarado
e por fim existiram
lábios de verão

mas disseram-lhe trovões
escureceu-se
gelou-se de inverno
e dormiu novamente
com olhos chuvosos
sonhando neblinas.

sábado, 30 de maio de 2009

Menino inventado

o menino se aproxima, entra
arqueia-se numa curiosidade inventada

o cenho franzido

sorri à carência de uma palavra
(não teve irmãos)
traz o corpo magro em seu andar
desajeitadamente inventado

mostra-se desconcertado, puro
conta-me suas coisas, coisas de vento
mas pergunta-me pelo amanhã; meus afazeres

sinto a ternura, a serenidade
sorrio sem lhe dizer que faria versos
versos para o irmão imaginado

minha mão aventava
o menino inventado.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Errante

Desaprendo meus passos
a vida passa
com acertos escorregadios
e meus olhos fechados.
E esse tempo que não volta?
E essa música que esqueço?
Meu corpo de gelo se derrete
em águas de vagas lembranças
que evaporam pelo ar
no calor dos dias
das coisas
das gentes...
Estas são as pegadas
do meu rastro volátil
o fantasma das escolhas
apontando para a alma
minha calma asfixiada
espremida entre os dedos
os medos que me ponho
meus sonhos enferrujados
nas projeções atrevidas.
Vida sem fim
vida que passa
abraça-me ao menos
para me ver partir
e dá-me o beijo do sim
pois vim a mim
num desatino do tempo
que me expulsa
constantemente
dos passados
e os apaga...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ausências

Este pedaço solto de alma
esta pele já tão pequena
em volta de mim...
Um novelo de emoções
sem um gato a se enroscar
Meus nós, meus embaraços
meus braços abertos
sem abraços
meus barcos sem norte
meu forte sem batalhas
voz sem canção
porão sem tralhas
A flor do coração
sem pétalas
sem cor
sem nada.
E cada
primavera escondida
cada ausência sentida
explodindo-me
num vazio crescente.
Meu mundo sem gente
meu tempo sem dia
meu verso poente
à mercê da poesia...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aranha

E tece nos pecíolos dançantes
Das folhas uma teia sem igual
Bailado de firmeza escultural
E variantes...

Pendura-se, aventura-se no céu,
Nos galhos espaçados e sutis
Captura o que é invisível. Tarde gris
Desfaz-se ao léu...

domingo, 17 de maio de 2009

Duas garrinchas

Hoje duas garrinchas pousaram na janela,
Encostaram-se e roçaram-se como namorados,
Não havia o que pensar ou ponderar; só as havia.
Subiram pelas paredes como exímias escaladoras que são.
Não me olharam, nem me julgaram.
Nada fizeram para mim, além de surgirem.
Duas pazes enamorando-se numa só.
Sobem, descem, andam, voam,
São tudo o que se deseja ser:
A leveza, a graça, o dom, o vôo.
O capricho nos saltinhos, a habilidade no pousar.
Quem lhes ensinou?