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CONTADOR

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A canção

Tenho às vistas entranhada uma alegria muda. Algo que palpita vividamente, mas sob um compasso triste, como corações acelerados ao som de um fado. Se há música em mim, que assim seja. Melodia simples, saudosa, em tom menor. Esse é o compasso do tempo, o ritmo de nossas vidas.
Creio que o tempo só exista porque existe a vida, e na existência de ambos nós nos perderemos, repetidamente. Mas a alegria a que me referi vem da sobriedade diligente. Vem de saber que a canção que inevitavelmente se acaba é a mesma que se mantém bela ao longo de toda a partitura. É a canção da vida. E esta será sempre maior que seu próprio som e profundamente mais tocante que o silêncio. Será plena, única, e tornar-se-á ainda mais apaixonante a cada vez que conseguirmos notar o quão frágil ela é, comparada ao tempo imensurável que a circunda, tempo que ela não tem para existir.
Há que se ter sensibilidade para a canção, e por vezes até emudecer as alegrias para ouvi-la.

6 comentários:

  1. Descobri que só um ensaio pra resolver o problema deste comment! rsrsrsr... enquanto isso, dá-lhe Pessoa!
    Um beijo!

    "Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço
    como sinfonia." (F. Pessoa)

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  2. Já li "A canção" diversas vezes. Não sei o que ocorre, ainda não entendi, mas encerra em si algo que provoca uma releitura sempre.

    Por enquanto, descobri que o poeta tem razão... "Há que se ter sensibilidade para a canção, e por vezes até emudecer as alegrias para ouvi-la."

    Abraço!

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  3. Eu poderia dizer que Vinicius, sem saber, me ajudou a escrever o texto. Há coisas aí que ele me soprou...

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  4. Salve, Roque.

    "A canção"... Releituras gerando releituras sempre. Um dia, ou jamais, entenderemos de todo o que há no texto.

    Hoje li um fragmento de Rubem Alves e lembrei de fazer a conexão:

    "De todas as artes, a música é a que mais se parece conosco. Para existir ela tem de estar sempre a morrer. Tudo o que é perfeito precisa morrer." Inclusive a vida.

    Um forte abraço.

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  5. Sim... de fato, infinitas conexões entre os dois escritos!

    Abraço

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